RENATO RUSSO
por FERNANDA HANNA*
De início quero esclarecer que este texto não tem a pretensão de tratar de assuntos relativos a datas, a fim de que o leitor goste da matéria.
Tenciono dividir aqui o Renato Russo que ouvi em trechos de algumas canções e as direções que ele nos propunha com elas.
Falar do Renato Russo é uma tarefa ampla e prazerosa, que traz lembranças boas e alegres, porém, é impossível fazê-lo sem referenciar, vez ou outra, a Legião Urbana. E sem esquecer que é um exercício de certa forma triste.
O lado triste está justamente na ausência de quem, com belíssimas letras nos ensinou a tomar gosto pelo rock, usando suas canções como meio para que pensássemos sobre a vida à nossa volta sem nos tornarmos inebriados e alheios. Falta Renato para continuar nos guiando pelos caminhos que ele traçou.
Não consigo ver a minha geração e as seguintes, que têm boa orientação, bom gosto e bom senso, sem a poesia-música de Renato Russo. Sinto por aqueles que não fizeram de seus ouvidos, ouvidos absolutos e não os direcionaram aquele trabalho.
Observando o cenário nacional é claro que Renato não foi superado e acredito que jamais será em virtude da originalidade e abrangência de sua obra.
Sem olvidar do que mais surgiu na década de oitenta, tempo de responder aos silêncios anteriores marcados pela sufocação e mordaça, pelo império do medo e terror: a ditadura, porém bandas com linhas de trabalho distintas, o que denota com ampla claridade que Renato Russo também jamais será ultrapassado. Eis que morreu consigo o maior poeta nacional do rock.
Com todo respeito aos que divergem, referindo-se a Cazuza.
Divergência que cai por terra comparando-se as obras de ambos.
E não há que se falar diverso.
O Renato está para o rock e seus fãs, tal qual o Senna está para a Fórmula 1.
Analisando o cotidiano brasileiro e algumas músicas da Legião Urbana eu encontro o seguinte: Falta-nos quem consiga contar e cantar a presença da morte chamando-a de "...(vem de repente um) anjo triste (perto de mim)..."; quem consiga nos falar de vida em sociedade, relações interpessoais, cantando versos como: ..."é a verdade o que assombra, o descaso o que condena, a estupidez o que destrói..."
Alguém que nos mostre a liberdade na cara dura, ao coletivo, mas de maneira individual, que "...não sou escravo de ninguém, ninguém senhor do meu domínio..."; que não há que se pensar em redenção pois a luta é constante e que a vida não para, que mesmo que haja um tombo, "...tudo passará..." pois..."não aprendi a me render, que caia o inimigo então...".
Não é preciso colocar o final da música, ahn?!
Sem dúvida o leitor está sendo capaz de captar cada mensagem contida nela e se não a estiver ouvindo neste momento, certamente o fará a fim de tirar suas próprias conclusões.
Acredito que uma boa maneira de mantermos o Renato Russo e a sua Legião Urbana vivos é ouvir sempre suas músicas, mesmo e especialmente aquelas que ainda não ouvimos, munidos com encartes na mão, uma e duas, e mais vezes, a fim de que possamos observar letra-a-letra cada parágrafo e por conseguinte conhecer a música e a mensagem que nela foi deixada ou que dela pode ser extraída.
E, ainda, sempre que possível transmitir este som maravilhoso aos nossos parentes mais jovens e amigos, afinal a vida apenas começou e temos muito ainda por fazer, não é mesmo?!!
São Paulo, agosto de 2004/inverno quente.
Escrito por *Arpejo Exótico* às 00h12
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